terça-feira, 6 de novembro de 2012
Dia 33
Seus olhos desfocados falavam alto demais enquanto me aproximava. Olhava diretamente em minha direção, mas não para mim.
– Sua curiosidade demorou para te trazer até aqui – ela disse, antes mesmo de eu abrir a boca para lhe dirigir a palavra. – Senti seu olhar desde o início da semana.
– Então você já sabe por quê eu vim?
– Não seja tola, eu não posso ler mentes.
– Eu também não.
– Sim, é verdade... Eu não conseguia mais viver sem saber onde eu acabava e ela começava. Até nossos cabelos se entrelaçavam quando dormíamos, até nossos sonhos se misturavam inconscientemente.
– Então você pôde ver a luz sumindo de seus olhos?
– Não pude olhar, já sentia profundamente mesmo sem ver. Ela era como eu, não só fisicamente. Sempre achei que me imitava até o dia em que tentou roubar minha vida, foi quando tive certeza. Me fez questionar sobre minha existência, queria que eu desistisse, que abrisse mão. O que fiz foi em legítima defesa, mas ninguém jamais vai entender o que eu passei.
– Desde quando você sentia vontade?
– Desde quando me lembro de ter vida, talvez ainda dentro da barriga de nossa mãe. Me lembro das suas células mentirosas, querendo me enganar. Agora eu consigo dormir sem ter meus cabelos emaranhados a ela, que era eu, ou que pelo menos fingia muito bem. Por fim, sobrevivi. Nunca me deixei enganar.
– Pode sorrir.
– Obrigada. – e sorriu, olhando através de mim.
terça-feira, 7 de fevereiro de 2012
Dia 05
Talvez fosse o calor excessivo que me levou a ter alucinações naquela noite, mas eu tive a nítida impressão de ouvir um granido alto logo após o som de um carro freando na minha rua. Dei um salto da cama e abri a janela, nada. Voltei pra cama.
Resolvi tentar dormir, afinal não havia mais nada pra fazer naquele quarto branco. Imaginei se o cão talvez estivesse na rua de baixo, e no porque de eu não ter escutado o arranque do carro após bater no pobre coitado.
Depois pensei se ele realmente era um pobre coitado, quero dizer, antes de ser atropelado. Na vida que ele levava nos 4 ou talvez 5 anos de vida que ele poderia ter. Na sociedade que ele vive, não obrigam ele a comprar uma roupa social desconfortável e a comparecer todos os dias na mesma hora e no mesmo lugar, ele não precisa escolher qual mesinha de centro o define melhor como pessoa ou se ele vai conhecer os pais da nova namorada na semana seguinte ou no mês seguinte ao pedido de namoro.
Ele provavelmente não se preocupava com os juros do banco ou com a conta de celular tendo que ligar todo dia pra cadelinha desejando boa noite, com a rejeição da família depois que ele foi expulso do catecismo por questionar o padre, e nem em comparecer no aniversário de 96 anos da bisavó da nova ficante.
Mas realmente comecei a invejar essa vida, quando me dei conta de que ele podia amar sem as toneladas de significados que essa palavra carrega, depois percebi que um sentimento não deveria ter uma palavra atrelada. Que eles podiam "amar" sem ter que assinar um contrato, sem dar relatórios diários sobre o que aconteceu no seu dia pra quem eles "amam". Mesmo os que tem donos humanos, entregam seu "amor" por vontade própria e não cobram o amor recíproco... sim, eles acabam conquistando muito afeto, mas eles não pedem por isso... Eles tem o que eu gosto de chamar de "Amor Livre", livre de contratos, de presentes de aniversário, de visitas na casa da família, de provas de amor, de...
- Legal essa história, mas o que isso tem a ver com a pergunta que eu te fiz?
- Então... eu senti uma invejinha desse cão, e comecei a ter vontade de me jogar na frente de carros. Por isso minha família me internou aqui.
Resolvi tentar dormir, afinal não havia mais nada pra fazer naquele quarto branco. Imaginei se o cão talvez estivesse na rua de baixo, e no porque de eu não ter escutado o arranque do carro após bater no pobre coitado.
Depois pensei se ele realmente era um pobre coitado, quero dizer, antes de ser atropelado. Na vida que ele levava nos 4 ou talvez 5 anos de vida que ele poderia ter. Na sociedade que ele vive, não obrigam ele a comprar uma roupa social desconfortável e a comparecer todos os dias na mesma hora e no mesmo lugar, ele não precisa escolher qual mesinha de centro o define melhor como pessoa ou se ele vai conhecer os pais da nova namorada na semana seguinte ou no mês seguinte ao pedido de namoro.
Ele provavelmente não se preocupava com os juros do banco ou com a conta de celular tendo que ligar todo dia pra cadelinha desejando boa noite, com a rejeição da família depois que ele foi expulso do catecismo por questionar o padre, e nem em comparecer no aniversário de 96 anos da bisavó da nova ficante.
Mas realmente comecei a invejar essa vida, quando me dei conta de que ele podia amar sem as toneladas de significados que essa palavra carrega, depois percebi que um sentimento não deveria ter uma palavra atrelada. Que eles podiam "amar" sem ter que assinar um contrato, sem dar relatórios diários sobre o que aconteceu no seu dia pra quem eles "amam". Mesmo os que tem donos humanos, entregam seu "amor" por vontade própria e não cobram o amor recíproco... sim, eles acabam conquistando muito afeto, mas eles não pedem por isso... Eles tem o que eu gosto de chamar de "Amor Livre", livre de contratos, de presentes de aniversário, de visitas na casa da família, de provas de amor, de...
- Legal essa história, mas o que isso tem a ver com a pergunta que eu te fiz?
- Então... eu senti uma invejinha desse cão, e comecei a ter vontade de me jogar na frente de carros. Por isso minha família me internou aqui.
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