terça-feira, 6 de novembro de 2012

Dia 33


Seus olhos desfocados falavam alto demais enquanto me aproximava. Olhava diretamente em minha direção, mas não para mim.
– Sua curiosidade demorou para te trazer até aqui – ela disse, antes mesmo de eu abrir a boca para lhe dirigir a palavra. – Senti seu olhar desde o início da semana.
– Então você já sabe por quê eu vim?
– Não seja tola, eu não posso ler mentes.
– Eu também não.
– Sim, é verdade... Eu não conseguia mais viver sem saber onde eu acabava e ela começava. Até nossos cabelos se entrelaçavam quando dormíamos, até nossos sonhos se misturavam inconscientemente.
– Então você pôde ver a luz sumindo de seus olhos?
– Não pude olhar, já sentia profundamente mesmo sem ver. Ela era como eu, não só fisicamente. Sempre achei que me imitava até o dia em que tentou roubar minha vida, foi quando tive certeza. Me fez questionar sobre minha existência, queria que eu desistisse, que abrisse mão. O que fiz foi em legítima defesa, mas ninguém jamais vai entender o que eu passei.
– Desde quando você sentia vontade?
– Desde quando me lembro de ter vida, talvez ainda dentro da barriga de nossa mãe. Me lembro das suas células mentirosas, querendo me enganar. Agora eu consigo dormir sem ter meus cabelos emaranhados a ela, que era eu, ou que pelo menos fingia muito bem. Por fim, sobrevivi. Nunca me deixei enganar.
– Pode sorrir.
– Obrigada. – e sorriu, olhando através de mim.